Ventos de 250 km/h derrubaram mais de 290 torres de transmissão desde julho, diz ONS

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Rajadas de até 250 km/h, contra os 90 a 100 km/h de antes, derrubaram 191 torres da rede básica e mais de 100 em linhas de 138 kV. Para o ONS, torres nove vezes mais pesadas não compensam: a aposta é em redundância.

Torres de linha de transmissão de energia sob céu nublado em Três Pontas, Minas Gerais

Torres de transmissão em Três Pontas (MG). Foto: WOtP / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Nível intermediário

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) colocou um número na conta das tempestades deste ano: desde 26 de julho, 191 torres da rede básica de transmissão, em linhas de 230 kV a 500 kV, foram ao chão. Somando as mais de 100 estruturas derrubadas em linhas de 138 kV, o total passa de 290 torres em menos de três meses.

Os dados foram apresentados pelo diretor de Operação do ONS, Valter Cardeal, na quarta-feira (21), durante a segunda edição do Prêmio ONS de Qualidade na Operação, no Rio de Janeiro. E a explicação do operador é direta: o vento mudou de patamar.

FICHA TÉCNICA
Torres na rede básica
191
Tensões atingidas
230 a 500 kV
Torres em linhas de 138 kV
mais de 100
Rajada máxima registrada
250 km/h
Referência histórica
90 a 100 km/h
Aço para resistir
9 vezes mais
Período
desde 26/07/2026
FONTE: ONS, 21/10/2026

De 100 km/h para 250 km/h

Segundo o material divulgado pelo ONS, as rajadas registradas nas tempestades recentes chegaram a 250 km/h, enquanto as velocidades historicamente recorrentes ficavam entre 90 e 100 km/h. Para o diretor-geral do operador, Marcio Rea, o culpado tem nome:

“O que derruba torre hoje é o El Niño. Antes, tínhamos uma chuva forte e um vento de 90, 100 km/h. Hoje, os ventos chegam a 250 km/h.”

— Marcio Rea, diretor-geral do ONS, à Agência iNFRA

O cenário climático ajuda a entender a preocupação. O Painel El Niño 2026-2027, boletim conjunto do INMET, INPE, Cemaden, ANA e outros órgãos federais, confirmou a configuração do fenômeno em junho e, na edição de agosto, apontava probabilidade de 100% de ele continuar ativo até pelo menos o início de 2027, com alta chance de chegar à categoria “muito forte”. E o ONS espera que as tempestades se intensifiquem justamente entre dezembro e janeiro.

Torre de transmissão de aço retorcida e caída no chão após ventos fortes

Torres derrubadas por ventos de um derecho em Houston (EUA), em maio de 2024: o mesmo tipo de dano que tempestades severas provocam por aqui. Foto: National Weather Service / Wikimedia Commons, domínio público.

EXPLICANDO

Por que 2,5 vezes mais vento é muito mais que 2,5 vezes mais esforço

A pressão que o vento exerce sobre uma estrutura cresce com o quadrado da velocidade. Na prática, dobrar a velocidade do vento quadruplica o empurrão sobre a torre e sobre os cabos que ela sustenta.

p = ½ · ρ · v²

Aqui, ρ é a densidade do ar e v é a velocidade do vento. Com os números do ONS: (250 ÷ 100)² = 6,25 vezes a pressão de uma rajada de 100 km/h. Comparada a 90 km/h, a conta dá cerca de 7,7 vezes.

Não à toa, o próprio operador reconhece que esses episódios podem superar os parâmetros de suportabilidade considerados no projeto das estruturas.

Reforçar tudo exigiria nove vezes mais aço

A saída óbvia seria construir torres mais robustas. Só que a conta não fecha, e o ONS já levou o assunto aos fabricantes. Rea resumiu a resposta:

“Para que uma torre aguente essas tempestades, ela precisaria de uma quantidade de aço nove vezes maior. Ou seja, seria um custo milionário para um problema que não acontece todo ano. […] Talvez a redundância seja um caminho melhor.”

— Marcio Rea, diretor-geral do ONS

Redundância, no jargão do setor, significa ter caminhos alternativos para a energia chegar ao consumidor. O sistema elétrico brasileiro já é planejado pelo chamado critério N-1: a perda de um único elemento, como uma linha ou um transformador, não pode interromper o atendimento. O problema é que uma tempestade severa não derruba uma torre só. Ela pode levar várias de uma vez, às vezes em circuitos paralelos, e aí esse colchão de segurança é testado ao limite.

Um exemplo aconteceu no interior de São Paulo em 24 de julho, dois dias antes do período contabilizado pelo ONS. Um temporal na região de Araraquara derrubou cinco torres da linha de 440 kV Água Vermelha–Araraquara, da ISA Energia, cinco da linha de 500 kV Marimbondo II–Araraquara, da Axia, e outras 16 nos dois circuitos da linha de 500 kV Nova Ponte 3–Araraquara 2, segundo o boletim diário do ONS citado pela CNN Brasil. A ISA relatou rajadas acima de 120 km/h no local. Na mesma tempestade, a distribuidora CPFL Paulista contabilizou 54 torres e mais de 250 postes no chão na sua área de concessão.

EM NÚMEROS
26 torres
derrubadas em três linhas de 440 e 500 kV num único temporal perto de Araraquara (SP), em 24 de julho.

O que o ONS pretende fazer

Em vez de sobredimensionar a rede inteira, o operador diz estar trabalhando com transmissoras e fabricantes em três frentes:

  • Monitoramento meteorológico mais preciso, para antecipar as tempestades;
  • Mobilização antecipada das equipes de recomposição, para que cheguem mais rápido aos locais atingidos;
  • Reforço da redundância elétrica e operacional da rede.

O ONS atribui ao trabalho das equipes de campo a continuidade do suprimento nas regiões afetadas. Mas o material divulgado não informa quanto tempo duraram as interrupções, onde exatamente as torres caíram nem quanto custou reconstruí-las. São perguntas que devem pesar no debate dos próximos meses, principalmente se a previsão de tempestades mais fortes no verão se confirmar.

COMO APURAMOS

Os números foram apresentados pelos diretores do ONS na cerimônia do Prêmio ONS de Qualidade na Operação, em 21 de outubro. Procuramos o material original no portal do operador, mas ele não estava disponível publicamente até a publicação desta matéria; por isso, conferimos os dados em duas coberturas independentes do evento, que batem entre si. A soma do operador (191 torres na rede básica mais de 100 em 138 kV) passa de 290; uma das coberturas falava em “mais de 200” no título. As falas de Marcio Rea foram dadas em entrevista a jornalistas e publicadas pela Agência iNFRA, daí o crédito.

O contexto climático vem direto do boletim oficial do Painel El Niño. O caso de Araraquara vem do boletim diário de operação do ONS, citado pela CNN Brasil (não localizamos o boletim original), e é anterior à contagem do ONS: entra só como exemplo, sem somar ao total.

Fontes: Painel El Niño 2026-2027 (INMET e outros), boletim de agosto, ONS, Agência iNFRA (entrevista com Marcio Rea), Cenário Energia e CNN Brasil.

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