ANEEL registra a primeira hidrelétrica reversível em ciclo fechado do Brasil, em Santa Catarina

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A UHR Salto Timbé do Sul, de 5,2 MW, é o primeiro projeto do tipo registrado como sistema de armazenamento de energia. Entenda como funciona uma usina que bombeia água morro acima para guardar eletricidade e o que o registro garante.

Reservatório superior artificial de uma usina hidrelétrica reversível no alto de um morro cercado de floresta

Reservatório superior da usina reversível de Rönkhausen (Alemanha). Foto: Dr. G. Schmitz / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Nível intermediário

O Brasil tem a primeira hidrelétrica reversível em ciclo fechado registrada como sistema de armazenamento de energia. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) publicou no Diário Oficial da União desta quarta-feira (21) o Despacho nº 3.960/2026, que registra o requerimento de outorga da UHR Salto Timbé do Sul, da empresa AMUR Ltda., no município de Timbé do Sul, no sul de Santa Catarina. Segundo a agência, o projeto tem 5,2 MW de potência instalada.

É pequeno para os padrões do setor, mas o marco é regulatório: trata-se da primeira aplicação, para esse tipo de usina, das regras de armazenamento que a ANEEL aprovou neste ano na Resolução Normativa nº 1.161/2026. A mesma regulamentação que abriu caminho para os primeiros leilões de baterias, marcados para dezembro.

FICHA TÉCNICA
Empreendimento
UHR Salto Timbé do Sul
Tipo
Hidrelétrica reversível, ciclo fechado
Local
Timbé do Sul (SC)
Potência instalada
5,2 MW
Titular
AMUR Ltda.
Ato
Despacho nº 3.960/2026
Validade do registro
4 anos, improrrogáveis
Capacidade em MWh
não divulgada
FONTE: DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 21/10/2026, SEÇÃO 1, P. 57; ANEEL

O que é uma hidrelétrica reversível

Uma usina reversível funciona como uma bateria feita de água. Quando sobra energia na rede, por exemplo no meio do dia, com muita geração solar, ela usa essa eletricidade para bombear água de um reservatório mais baixo para um mais alto. Quando a energia volta a fazer falta, a água desce pelas mesmas tubulações e passa pelas turbinas, gerando eletricidade de novo. Em muitas usinas, a mesma máquina faz as duas coisas: gira num sentido como bomba e no outro como turbina, daí o nome “reversível”.

O detalhe do ciclo fechado é que os reservatórios não ficam no leito de um rio. São dois ou mais reservatórios ligados entre si, e a água circula entre eles sem interferir diretamente no fluxo contínuo de um curso d’água. É justamente isso que faz a regulamentação tratar o projeto como sistema de armazenamento de energia, sujeito ao regime de autorização dos SAE, e não pelas regras das hidrelétricas convencionais, que exploram o potencial hidráulico de uma bacia.

Vista aérea do reservatório superior de uma usina reversível, cercado por montanhas com floresta

Reservatório superior da usina reversível de Omarugawa, no Japão, visto de cima. Foto: Geospatial Information Authority of Japan / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

EXPLICANDO

Quanta energia cabe num reservatório?

A energia guardada é a energia potencial da água elevada. Ela depende da massa de água e da diferença de altura entre os reservatórios, a chamada queda:

E = m · g · h

Num exemplo hipotético, 1.000 m³ de água (1.000 toneladas) elevados a 100 metros guardam cerca de 1.000.000 × 9,81 × 100 ≈ 981 milhões de joules, ou 0,27 MWh, antes das perdas no bombeamento e na geração. Por isso esses projetos buscam relevo acidentado: dobrar a queda dobra a energia armazenada com o mesmo volume de água.

A ANEEL não divulgou a queda nem a capacidade em MWh da UHR Salto Timbé do Sul, então não dá para calcular quantas horas ela consegue entregar seus 5,2 MW.

O que o registro garante (e o que não garante)

Vale a precisão, porque parte do noticiário falou em “autorização”: o ato publicado não é a autorização da usina. A Resolução Normativa nº 1.161/2026 criou uma etapa opcional, anterior à outorga, chamada Despacho de Registro do Requerimento de Outorga do sistema de armazenamento (DRO-SAE). Ela serve para o empreendedor avançar em passos que viabilizam o projeto, como o licenciamento ambiental e as exigências de outros órgãos públicos e de agentes financiadores.

  • O registro vale por quatro anos, sem prorrogação, contados da publicação do despacho;
  • Não dá preferência, exclusividade nem garantia de que a autorização será concedida;
  • O empreendedor também pode pedir a autorização direto, sem passar por essa etapa.
EM NÚMEROS
200 GW
é a capacidade mundial de usinas reversíveis, superada pela primeira vez em 2025, segundo a International Hydropower Association. Outros 243 GW estão em construção.

A maior forma de armazenamento do mundo

Se no Brasil a tecnologia está só começando, lá fora ela é veterana. De acordo com o World Hydropower Outlook 2026, da International Hydropower Association (IHA), o mundo instalou um recorde de 11,7 GW em usinas reversíveis em 2025, e a capacidade global passou de 200 GW pela primeira vez, o que mantém essa tecnologia como a maior forma de armazenamento de energia do planeta. A China lidera com folga: são 218 GW de usinas reversíveis em construção no país, segundo a entidade.

O interesse cresce pelo mesmo motivo que puxa as baterias: quanto mais solar e eólica entram na rede, mais valioso fica guardar energia em um horário e devolver em outro. A diferença está na escala de tempo. Baterias de lítio costumam ser contratadas para poucas horas, como os sistemas de 4 horas exigidos no leilão de dezembro; usinas reversíveis podem ser projetadas para durações bem maiores, dependendo do tamanho dos reservatórios.

O próximo passo da UHR Salto Timbé do Sul é o licenciamento ambiental e, depois, o pedido de autorização propriamente dito. O registro na ANEEL não informa a capacidade de armazenamento, o cronograma de obras nem o valor do investimento, dados que ainda faltam para dimensionar o papel do projeto.

COMO APURAMOS

O despacho foi conferido direto no Diário Oficial da União (edição de 21/10/2026, seção 1, página 57): número do ato, empresa, tipo de sistema e município. A potência de 5,2 MW está no anexo do despacho, que não sai no DOU; ela foi divulgada pela ANEEL e aparece de forma idêntica em quatro coberturas independentes. O acervo de documentos da ANEEL bloqueia acesso automatizado, por isso não abrimos o anexo diretamente. Os números globais vêm do relatório da própria IHA. A conta de energia no quadro “Explicando” é um exemplo hipotético, não um dado do projeto.

Fontes: Diário Oficial da União, Despacho nº 3.960/2026, ANEEL e International Hydropower Association, World Hydropower Outlook 2026.

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