Brasil faz seus primeiros leilões de baterias em dezembro: o que está em jogo
Os dois LRCAP de armazenamento acontecem em 2 e 4 de dezembro, com regra de conteúdo nacional, sistemas de no mínimo 30 MW e 4 horas de duração. Veja as regras, os números do setor e por que as baterias ficaram mais caras.
Usina de armazenamento em baterias de 5 MW e 6,24 MWh em Rheineck (Suíça). Foto: Kecko / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
Nível intermediário
O Brasil vai contratar baterias para o sistema elétrico pela primeira vez, e a contagem regressiva já começou. Os dois Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) de armazenamento estão marcados para 2 e 4 de dezembro de 2026, com contratos de 15 anos e entrega a partir de 1º de agosto de 2028. Enquanto fabricantes e desenvolvedores correm para fechar fornecedores, o interesse pelo assunto também explodiu fora do setor: as buscas no Google por “BESS” cresceram 120% em um ano.
BESS é a sigla em inglês para Battery Energy Storage System, o sistema de armazenamento em baterias. Na prática, são contêineres cheios de células de bateria, conversores e sistemas de controle, que carregam quando sobra energia na rede e devolvem quando ela faz falta.
Dois leilões, uma diferença: o conteúdo nacional
A Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026, dividiu a contratação em dois certames. O LRCAP de 2026 – Armazenamento Nacional, em 2 de dezembro, negocia o produto Potência Armazenamento 2028 A e é exclusivo para sistemas que comprovem requisitos mínimos de fabricação nacional, verificados pelo BNDES. O LRCAP de 2026 – Armazenamento, em 4 de dezembro, negocia o produto 2028 B e aceita sistemas sem essa exigência, inclusive totalmente importados.
A verificação segue as regras de credenciamento Finame do BNDES para sistemas de armazenamento em baterias, na chamada Etapa 1, que o banco manteve “congelada” para o leilão de 2026. Os requisitos de fabricação nacional e de componentes e processos adicionais são cumulativos, e o sistema precisa atingir um Índice de Estrutura Produtiva (IEP) de no mínimo 15%.
Isso abriu caminhos bem diferentes. Há quem aposte em fabricar baterias aqui, como WEG e Moura, em parceria com fornecedores chineses. E há a rota mais rápida: nacionalizar o sistema de conversão de potência (PCS) e o de gerenciamento de energia (EMS) e importar o contêiner de baterias. Segundo Eduardo Tobias, sócio da consultoria Watt Capital, essa segunda opção reduz o risco de depender de fábricas que ainda nem ficaram prontas:
“Com essa rota, a capacidade de fornecimento com o código Finame aumenta consideravelmente. É possível trazer contêiner importado em seis meses.”
— Eduardo Tobias, sócio-fundador da Watt Capital, à pv magazine Brasil
O preço ainda é a grande incógnita. As primeiras propostas de sistemas nacionais chegaram a custar entre 40% e 50% a mais que as soluções importadas, segundo Tobias, e os valores vêm caindo desde então. Pelas contas dele, considerando o financiamento mais barato do Fundo Clima ao longo dos 15 anos de contrato, um sistema nacional poderia custar até cerca de 25% a mais e ainda assim se aproximar da paridade financeira. O consultor contou 53 empresas em um levantamento preliminar, e não exaustivo, de possíveis concorrentes.

Contêiner de armazenamento em baterias: além das células, ele abriga o sistema de conversão de potência (PCS) e o de gerenciamento de energia (EMS). Foto: Yan lance / Wikimedia Commons, CC0.
O que o edital exige de cada sistema
A mesma portaria define o que conta como um sistema apto a participar. Os principais requisitos, conferidos no texto publicado pelo Ministério de Minas e Energia, estão na ficha abaixo.
- Potência instalada mínima
- 30 MW
- Entrega da potência máxima
- 4 h por ciclo
- Recarga completa
- até 6 h
- Ciclos
- até 2 por dia, 366 por ano
- Eficiência de ciclo (RTE)
- mínimo 85%
- Contrato
- 15 anos
- Início do suprimento
- 01/08/2028
MW ou MWh? A diferença que decide um leilão de baterias
MW é potência: quanta energia o sistema entrega a cada instante. MWh é energia: quanto ele consegue guardar. Um sistema que entrega 30 MW durante 4 horas precisa ter armazenados pelo menos:
30 MW × 4 h = 120 MWh
Isso sem contar perdas. E a eficiência mínima de 85% quer dizer que, de cada 100 MWh tirados da rede para carregar, no mínimo 85 MWh precisam voltar.
Esse último ponto pesa no projeto, porque baterias perdem capacidade com o uso, e a exigência de 85% vale ao longo de todo o contrato, não só no primeiro dia. Na prática, o empreendedor precisa prever a degradação e, se for o caso, a instalação de módulos extras ao longo dos anos (o chamado augmentation) para manter o desempenho prometido. O montante total a ser contratado não está na portaria: será definido pelo Ministério de Minas e Energia com base em estudos da EPE e do ONS.
Quanto o país precisa (e quanto consegue fabricar)
A Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) estima um déficit de potência de aproximadamente 4,5 GW em 2028. Atendido só com baterias de 4 horas, isso daria 18 GWh de armazenamento. Em um levantamento feito no início de julho, a entidade identificou uma expectativa de capacidade produtiva nacional da ordem de 12 GWh (3 GW de potência), número que ainda deve ser atualizado com as parcerias em andamento. Mesmo assim, o leilão com conteúdo nacional não deve ser desenhado para absorver toda essa oferta, para não reduzir a competição entre os projetos.
No longo prazo, a Absae fala em uma demanda da ordem de 70 GWh nos próximos dez anos, que vai além dos leilões de capacidade: inclui transmissão, sistemas isolados e aplicações comerciais e industriais.
O mundo está comprando baterias ao mesmo tempo
O Brasil entra nesse mercado num momento de demanda aquecida. Na previsão publicada nesta quinta-feira (22), a BloombergNEF projeta um crescimento de 45% nas instalações globais de armazenamento em 2026, em gigawatts, e prevê que a capacidade acumulada no mundo chegue a cerca de 3 TW (11 TWh) em 2036, dez vezes o nível de 2025.
Só que a conta das baterias não está mais caindo como antes. A BNEF aponta o aumento recente no preço dos materiais de LFP (lítio-ferro-fosfato, a química dominante no armazenamento estacionário), que já faz alternativas como as baterias de sódio-íon ganharem espaço. A consultoria também cita o Brasil entre os países com políticas protecionistas para o setor, ao lado de Coreia do Sul e Índia, embora com medidas menos rígidas que as dos Estados Unidos.
E o interesse do público?
O salto nas buscas vem de um levantamento da Descarbonize Soluções, empresa do setor solar, com base em pesquisas no Google entre setembro de 2025 e agosto de 2026. O termo “BESS” passou de 104 mil consultas, alta de 120%. “Baterias estacionárias” foi o termo mais buscado, com 248 mil consultas (alta de 22%), e “kit energia solar off-grid” cresceu 53%. Santa Catarina lidera o interesse proporcional à população, seguida por Distrito Federal e Paraná.
Vale a ressalva que o próprio levantamento faz: buscas na internet não são vendas, demanda contratada nem capacidade instalada. Mas mostram que o armazenamento de energia deixou de ser assunto só de engenheiro de planejamento. A partir de dezembro, ele passa a ter preço, prazo e contrato.
Datas, produtos, prazos e requisitos técnicos foram conferidos direto no texto da Portaria Normativa MME nº 136/2026; a regra de conteúdo nacional, na página do BNDES sobre o LRCAP 2026; e as projeções globais, na publicação da própria BloombergNEF. As falas de Eduardo Tobias e os números da Absae vêm de entrevistas exclusivas da pv magazine Brasil, por isso o crédito. O número de 120% vale só para o termo “BESS” e vem de um levantamento de empresa do setor solar; por isso deixamos claro que se trata de buscas, não de vendas.
Fontes: Portaria Normativa MME nº 136/2026, BNDES (LRCAP 2026), BloombergNEF, pv magazine Brasil (entrevistas com Watt Capital e Absae) e Descarbonize Soluções (levantamento de buscas).

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